Sobre ônibus, acasos e gentileza… Percebes?

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Essa é uma história real que tenho todo o prazer em contar.

Peguei o ônibus para casa, voltando do outro lado da cidade, precisava descansar, a noite seria longa e a ansiedade não me deixou dormir no dia anterior.
Dei a “sorte” de pegar um ônibus com ar-condicionado nessa cidade onde no inverno se faz 30ºC.
Fui para janela do banco alto no final do ônibus, lugar perfeito para quem quer tirar um cochilo, coloquei os fones e esperei a música me levar para a terra dos sonhos.
Antes mesmo de cogitar em fechar os olhos, uma senhora pediu licença para sentar-se ao meu lado, sua gentileza me instigou a iniciar uma conversa, mas nessa sociedade em que falar com desconhecidos você é taxada como estranha, achei melhor me calar.
Voltei para o meu mundo particular a espera do sono, porém a boa ventura do ônibus climatizado e a minha preferência por bancos altos, virou a combinação perfeita para impedir qualquer um, inclusive a mim, de dormir.
Começou com algumas gotas tímidas na minha mochila, e não tardou a passar para a minha perna, logo estava caindo uma mini cachoeira na minha cabeça, resolvi ser otimista, estava um dia quente e eu cheia de areia, água faria bem a mim.
Mas esse “infortúnio” permitiu que eu conhecesse uma das melhores pessoas dessa cidade, a senhora ao meu lado, diante a minha situação começou a rir, e vi a minha oportunidade de garota tagarela a iniciar uma boa conversa.

E que conversa.

Conheci uma senhora de 84 anos, que sai toda manhã pela cidade para não cair na mesmice, mesmo sendo sozinha, não se deixa abater e sua felicidade e gentileza são contagiantes.
Morou com seus avós em Portugal quando criança (e ainda se emociona ao lembrar deles) enquanto seus pais vieram para o Rio fugidos da ditadura de lá. Teve uma infância complicada pórem feliz, cheia de histórias, e aos 15 anos veio para cá, sabia que esse era seu destino, afinal morava na Rua do Brasil antes de viajar.
Conheceu o marido na pensão de sua mãe, teve filhos, netos e bisnetos, mas a injustiça da vida o tirou cedo demais, apesar de saudosa sabe que um dia vai encontrá-lo e ainda sim permanece feliz.

Conversamos o trajeto todo, ela desceu um ponto antes de mim, pediu desculpas pelo o incomodo que não existiu, e me avisou de falar com ela se algum dia a encontrasse de novo.
Sinceramente quero muito encontrá-la, essa senhora com alma de moça, que conta histórias, dá balinhas a motoristas de onibus (e a mim), não tem vergonha em apreciar a beleza masculina (e está mais do que certa), e que fez do meu dia ainda que um pouco mais cansativo…

Mas extremamente mais feliz.

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Me refiz em cores

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A noite chegou e de mim retirou todas as cores, deixou meu chão, minhas paredes, meu teto e meu corpo sem cor. Nem preto, nem branco ou cinza lá havia.

Corri para o espelho buscando provar a mim mesma que ainda existia.

Parei.

Encontrei no reflexo um corpo, porém não me achava ali.

Então encarei aquela versão sem vida do que um dia fui eu. Mirei os olhos reflexivos e muito rapidamente vi uma luz, fora breve, porém algo aconteceu.

Tive uma idéia.

Peguei minha gaveta da bancada e voltei para o espelho. Nela havia canetas e canetinhas, lápis, giz, tintas e pincéis.

Comecei com o branco. Dando uma base para o que estava por vi.
Então o vermelho iniciando no lado esquerdo do peito em um grande circulo. Dali saia-se linhas curvas em todas as direções.

Salpiquei verde, trazer esperança ao meu desespero incolor. Amarelo para iluminar mais a vida.

E assim fui, trazendo cada cor para a pele, e seu significado para meu interior.

Misturei tudo, criei novas cores, e quando terminei, percebi ter transformado eu e meu redor num enorme arco-íris.

Monstros da Madruga

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Um murmúrio no meio da noite, viro-me ainda tomado pelo sono das noites mal dormidas, porém a vejo sentada no colchonete que nos serve de cama.

O que há? – Indago, mais para mim do que para ela, tão absorta nos próprios pensamentos.

Vejo seus olhos, tão escuros como a noite que nos cerca, iluminados por uma fresta que a luz da lua conseguiu alcançar, e naquele brilho duvidoso desperto-me.

Abraço-lhe, protegendo suas costas sempre tão vulneráveis, beijo a base de seu pescoço e digo ao pé do ouvido que estou ali. Sua cabeça repousa em meu peito, ela se entrega a minha proteção.

De repente, vira-se, lança-se sobre mim, agarra-me pelos cabelos, braços e pêlos, numa tentativa de desafiar a física e ocupar dois corpos em um só espaço. Então, para.

Afasta-se o suficiente para olhar-me nos olhos e recita frases de nossa história favorita. Sorri, e me pulxa para deitar.

Fico por um momento em dúvida se estava sonhando, porém vejo aquele rosto tão perfeitamente detalhado e sei que nem a mais forte das imaginações poderia o retratar.

Permito-me voltar para os braços de morfeu enquanto a envolvo nos meus. Sei que seus monstros do armário foram embora, afinal, sinto suas mãos pelo meu cabelo deslizar.

Camila Fernandes

Luzes da Cidade

tumblr_lld87sudiS1qfmp57o1_500_largeEstou no ônibus voltando e com você, para variar, no pensamento.
Está escuro, olhos fechados por todo lugar, exceto o meu, sua lembrança me faz companhia.
Olho pela a janela, e cada vez que revejo seu sorriso, sua voz, seu cheiro. Uma luz se acende lá fora.
Pisca, rodopia e vai embora, como se fosse uma bailarina da última peça que fomos.
E cada lembrança uma luzinha, e vão surgindo, ao mesmo tempo, cintilantes e brilhantes, guiando o caminho de retorno.
É um lindo ballet em meio a escuridão, você iria gostar.
De tanto me lembrar da sua presença, já não existe mais breu, nasceu o dia, o ônibus está parando.
Ei, eu to chegando.

Camila Fernandes

Baile de Máscaras

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Rostos ocultos por todo salão, olhares misteriosos vagam, instigando e guardando segredos. O clima é de um sedutor suspense, que provoca, apaixona e surpreende. Então, um par de esmeraldas miram a tempestade de outros olhos.

Já não era a primeira vez naquela noite que tais pares se cruzavam, seguia-se uma dança em que um procurava enquanto outro, esquivava. Rodavam pelo salão, parados, sustentando aquele olhar.

De repente, alguém se aproxima… Um azul do mais profundo oceano. Domina todo verde esmeralda com ondas inescapeveis. Este por sua vez sucumbe, mergulha e se afoga, em um desespero busca a tempestade de outrora.

Um ato impensado, e inicia-se um duelo entre céu e mar, relâmpagos e ondas. A atenção do salão se volta para a batalha, não há rostos, mas sob as máscaras percebe-se a tensão, o medo e fúria. Uma nova dança começa, o tintilar das espadas, cada passo pode ser fatal, a música cresce conforme o ritmo da dança, um tango com a morte.

E então, um erro.

O tempo, o espaço, a música param. Um grito surdo ecoa pelo salão.

Do verde vê-se o pavor, dos olhos cor de mar, satisfação. E a tempestade, se esvai…. Sem vida.

-Camila Fernandes

Pera, não vá embora ainda, a história não acaba por aí… Ela pode ter outro final…. ou melhor, finais.
Quer descobrir? é fácil, clique nos links a seguir e divirta-se com as demais possibilidades desse conto.

aos que preferem relâmpagos do que o mar
e quando a esperança é a última a morrer

Opa, talvez não seja tão fácil assim… Que tal um pequeno desafio?
Para cada final existe uma palavra-chave que está espalhada pelo o texto original. Para ajuda-los, darei uma dica:
As metáforas são a alma do texto.

Que a festa comece….

Fotografias….

lembranças

um clique, um flash…

Registra-se um segundo
Registra-se histórias
Registra-se um mundo
Regista-se memórias.

O tempo corre
a lembrança se perde no consciente
esquecemos um passado
que ja foi tão presente.

e aí, ao revirar toda bagunça,
encontra ali guardado
o lembrete de todo amor
um dia celebrado.

e todo sentimento volta
reascende toda aquela alegria
Afinal, toda foto
tem seu poder de nostalgia.

Camila Fernandes

Reencontrando meu mundo

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Fazia tempo que eu havia me prendido a rotina, o trajeto para a faculdade era nada além disso; um trajeto. Este que eu nem via, nem sentia, estava mais ocupada com os problemas do dia-a-dia. Meu mundo estava resumido a uma tela de 5 polegadas onde o meu entorno não passava de um cenário embaçado.

Mas hoje, ao final do dia, pegando a barca (para variar atrasada) olhei para frente e vi um pôr-do-sol dos mais lindos que já pude presenciar. E do resto esqueci, não importava mais a prova de amanhã, o projeto para empregar, nem mesmo os conselhos que precisava dar. Lembrei que o mundo real tem uma beleza que o virtual nunca irá alcançar.

Passei o resto do meu longo caminho de volta reencontrando meu mundo, olhando justamente o que me cercava: árvores e prédios, risos e conversas, gente que como eu pouco tempo antes, estava preso a um mundo tão frio e pequeno, baseado somente em imagens. Sem tato, ofato, sem sensações e com pouca cor. Um mundo que com o tempo, cansa a vista e dá tendinite. O sentimento foi de liberdade, e assim fui… redescobrindo minha cidade.

Camila Fernandes