60 anos com você

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Eles caminhavam de mãos dadas, um se apoiava no outro, e seguiam a passos lentos, sem se preocupar com o tempo, afinal, este já era seu amigo de longa data.

Foram para o metrô, sentaram nos últimos bancos disponíveis, o balanço dos vagões a fez apoiar a cabeça no ombro dele e logo dormiu. Ele, por outro lado, estava atento, certificava-se de não se mexer, enquanto aguardava sua estação chegar.

Ponto final.

Ele a acariciou para que acordasse, ela se remexeu e resmugou, então um beijou para despertar.

Abriu os olhos, sorriu, e retribuiu o beijo. Então levantaram, de braços dados, em passos lentos, não tinham pressa, muito menos motivos para ter, tiveram uma vida toda lado a lado, e continuaria assim por mais alguns bons anos.

Esqueci aquela foto com você

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Amor, tava procurando uma foto nossa para colocar no porta-retrato que ganhei da minha tia avó no último Natal, uma daquele dia que fomos até o bar, bebemos até cansar e voltamos andando para casa falando em inglês.

Procurei, mas não achei.

Amiga, venho caçando um retrato da gente para por no meu mural, da última vez que a gente se encontrou, no dia da sua estreia no teatro, mas como agora você viajou e não sei quando vou te ver queria ter essa lembrança de você.

Procurei, mas não achei.

Prima, lembra daquele dia na piscina? Na festa da faculdade? Estava querendo uma foto para guardar na caixinha de lembranças, ainda mais nesse dia que gargalhamos igual crianças.

Procurei, mas não achei.

Agora, aqui refletindo, percebo sorrindo que de nenhum desses dias tenho uma fotografia registrada. Estávamos todos nós tão preocupados nos divertindo que não havia tempo para parar e pousar, mas fica viva a lembrança, na nossa memória guardada.

Recomeço

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A vida nos impulsiona a recomeçar.  E esse processo nunca é fácil e tranquilo, até porque, quando se há um recomeço, geralmente é porque houve um fim.

Sina do ser humano é sofrer com o fim, seja ele o que for, dói lá no fundo fazer as coisas de outro modo, dói sair da nossa zona de conforto.

Mas aqui vai meu conselho, se para todo fim existe dor, para todo início crie alegria, faça de cada novo capítulo um lindo colorido de possibilidades.

Reinvente e crie, inspire-se e avance, destemida para todo um caminho a traçar.

Afinal, o fim às vezes é só o começo.

Mais universos para meu mapa-mundi

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Devido a eventualidades das coisas, cai num abismo temporal.
Meu mundo tão vasto resumia-se a 4 paredes e um chão sem cor.

Tentei me expandir ainda assim, busquei cores, formas, busquei as palavras…
por algum tempo funcionou como distração, era uma linda cortina para a janela fechada.

Mas minha pertubação continuava, olhava para o mapa na parede e peguntava aos meus botões:
“Onde estão as tantas pessoas desses 4 cantos e 7 mares?”
O mar havia desbotando do seu azul profundo até chegar num cinza sem-graça.
Terras, cheias de verdes, viraram um amarelo deserto sem fim…

Então olhei para cima, vi um clarão furta-cor,
do teto ele me guiava até a porta, por muito tempo trancada sem que eu percebesse, escondida atrás das confusões e soterrada pelos problemas.

Cavei e fui atravessando, não era de longe fácil. O caminho era apertado e fechado por sentimentos ruins,
alcancei a maçaneta, o brilho ficou mais forte, forcei a chave a girar.

E de repente estava flutuando na não gravidade da vida,
olhei em torno, cores espaciais, caminhos para novas terras,
e mais portas abertas com gente a me cercar.

One of the boys

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Fim do dia, trânsito caótico, dois ônibus e muito cansaço.

Toco o interfone, uma pessoa aparece na janela enquanto uma voz conhecida surge na caixinha preta ao lado da porta.

Para variar, casa cheia, rostos novos…
Pausa para apresentações.

Tiro o sapato, largo a mochila, e vou na caça dos moradores da casa.

Primeiro, o violão, com seu dedilhado vai me guiando até quarto. Então, o rap de improviso com um beatbox acompanhando me levam até a cozinha.
Ali no cantinho, uma caneta rabisca o papel lindamente.

Pausa para nosso reencontro; sorrisos sinceros e abraços apertados.

Volta-se as manifestações artísticas, participo com minha dança mais ridícula.

Vamos então para o espaço mais íntimo da casa, nosso refúgio onde o amor permeia o ar, o teto e as paredes.

E de repente o mundo lá fora não faz mais sentido, e os problemas deixam de ser tão pesados.
Todo estresse é trocado por risadas.
O cheiro do incenso avisa ao corpo que é hora de relaxar.

E deitada no colchão pueril, ao som de músicas, conversas e piadas, fecho os olhos e sorrio: estou em casa.

Sobre ônibus, acasos e gentileza… Percebes?

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Essa é uma história real que tenho todo o prazer em contar.

Peguei o ônibus para casa, voltando do outro lado da cidade, precisava descansar, a noite seria longa e a ansiedade não me deixou dormir no dia anterior.
Dei a “sorte” de pegar um ônibus com ar-condicionado nessa cidade onde no inverno se faz 30ºC.
Fui para janela do banco alto no final do ônibus, lugar perfeito para quem quer tirar um cochilo, coloquei os fones e esperei a música me levar para a terra dos sonhos.
Antes mesmo de cogitar em fechar os olhos, uma senhora pediu licença para sentar-se ao meu lado, sua gentileza me instigou a iniciar uma conversa, mas nessa sociedade em que falar com desconhecidos você é taxada como estranha, achei melhor me calar.
Voltei para o meu mundo particular a espera do sono, porém a boa ventura do ônibus climatizado e a minha preferência por bancos altos, virou a combinação perfeita para impedir qualquer um, inclusive a mim, de dormir.
Começou com algumas gotas tímidas na minha mochila, e não tardou a passar para a minha perna, logo estava caindo uma mini cachoeira na minha cabeça, resolvi ser otimista, estava um dia quente e eu cheia de areia, água faria bem a mim.
Mas esse “infortúnio” permitiu que eu conhecesse uma das melhores pessoas dessa cidade, a senhora ao meu lado, diante a minha situação começou a rir, e vi a minha oportunidade de garota tagarela a iniciar uma boa conversa.

E que conversa.

Conheci uma senhora de 84 anos, que sai toda manhã pela cidade para não cair na mesmice, mesmo sendo sozinha, não se deixa abater e sua felicidade e gentileza são contagiantes.
Morou com seus avós em Portugal quando criança (e ainda se emociona ao lembrar deles) enquanto seus pais vieram para o Rio fugidos da ditadura de lá. Teve uma infância complicada pórem feliz, cheia de histórias, e aos 15 anos veio para cá, sabia que esse era seu destino, afinal morava na Rua do Brasil antes de viajar.
Conheceu o marido na pensão de sua mãe, teve filhos, netos e bisnetos, mas a injustiça da vida o tirou cedo demais, apesar de saudosa sabe que um dia vai encontrá-lo e ainda sim permanece feliz.

Conversamos o trajeto todo, ela desceu um ponto antes de mim, pediu desculpas pelo o incomodo que não existiu, e me avisou de falar com ela se algum dia a encontrasse de novo.
Sinceramente quero muito encontrá-la, essa senhora com alma de moça, que conta histórias, dá balinhas a motoristas de onibus (e a mim), não tem vergonha em apreciar a beleza masculina (e está mais do que certa), e que fez do meu dia ainda que um pouco mais cansativo…

Mas extremamente mais feliz.