Caquinhos

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    Esta tudo bagunçado, veio um furacão. Colocou tudo em cacos, todos os meus pedaços no chão. Tudo refletia a triste confusão de mim. Fiquei alí, cortada em meus cacos. As lágrimas incontáveis lavavam minhas mãos, tão sujas de sangue e mágoas.

Até que você veio. Olhou para mim, analisou a situação. Sentou comigo, sem se preocupar com os cortes que o vidro, que me tornei, poderiam lhe causar. Limpou meus dedos e feridas, meus olhos, ordenou que parassem de vasar. Obedeceram.

Depois disso foi embora, me pediu para ter calma. Que eu não estaria mais sozinha. Após sua partida, ela entrou. Seus olhos transmitiam compreensão e empatia. Abraçou-me. E naquele colo confortável, dormi o que não conseguia há dias.

Acordei deitada no chão, ainda envolta em meus cacos escuros. Quis me desesperar, me perder. Até que o vi. Ele estava sentado há minha frente, analisando meus caquinhos. “Diga”, ele falou, “o que tiver que dizer”. E assim o fiz. Meus pensamentos criaram voz, como pensar em voz alta. Depois do começo, só parei quando um livro de palavras estava pronto. Que alívio. Qualquer indício de culpa evaporou, diante daqueles olhos livres de julgamentos. Como um quebra cabeça, montamos meus cacos. Outros vieram ajudar. Era tanta segurança e companheirismo, que consegui até sorrir.

Eles se foram. Despediram-se com beijos e abraços. Até que ele veio e algo se apertou em meu peito. “Você precisa levantar”, ele disse. Não. Eu não podia, minhas pernas doíam e não me obedeciam mais, jamais poderia andar novamente. Fui surpreendia com um puxão, gritei de dor. E desespero. “Não quero seguir em frente, por favor!” Ele me pegou pelos braços, me carregou para longe de onde caí. Eu carregava meu coração, não mais em cacos, em meus braços.

Longe dalí, algo cresceu dentro de mim. Não tenho certeza do que, mas borbulhava em minhas veias uma vontade que não sentia há tempos. Soltei-me e comecei a andar. No começo mancava, depois já estava correndo. Não sabia para onde estava indo, só que estava em meu caminho. Ela se juntou a mim e começamos a subir. Tive medo da altura, mas ela me tranquilizou. Disse que já estive ali, em maiores alturas.

Ao chegar ao topo meu coração acelerou. Ele já estava forte e gritava em meu peito, eu precisava continuar. Olhei em volta e encontrei todos os que me ajudaram.

“Como agradeço?” Perguntei.

“Fazemos por amor” eles responderam.

“Como chamo vocês?” Insisti.

“Amigos.”

E você me empurrou. Estava em queda livre, pela imensidão da vida. Mas tudo bem, já tinha reaprendido a voar.

Em um rasante ela voltou para o céu, onde era seu lugar.

Samyres Amaral

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