Uma crônica sobre chocolate e café

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Estávamos fazendo um lanche na varanda no nosso antigo-porém-reformado apartamento, quando mamãe me perguntou o que eu queria de presente para a casa nova. Não pude deixar de divagar. Eu finalmente estava saindo de casa. Passarei a viver sozinha, mais perto da vida adulta e longe do colo macio e protetor da infância. E dentro desse novo mundo de possibilidades e assustadoras expectativas, o que eu poderia querer?

– Uma cafeteira – pedi – para me manter acordada nas noites de trabalho e nas manhãs mais sonolentas e preguiçosas.

– Mas você não toma café, querida – mamãe respondeu – prefere achocolatado.

E mais uma vez ela me mandou para dentro da minha própria cabeça. O amadurecimento dos vinte e poucos anos chegou como o mar em ressaca na minha vida. Será que consigo encarar essa onda digna de campeonato de surf no Havaí… Com Nescau?

Encontrei-me num divisor de águas.

Com os olhos limpos das lágrimas que tentavam escapar, eu provei pela última vez o gosto que achocalatava minhas manhãs. Não poderia leva-lo comigo, não importa o quanto minha saliva cada vez mais abundante insistisse. Ele pertencia à infância, quem o teria agora seriam minhas doces lembranças. E o Carlinhos, meu irmão mais novo.

– Uma cafeteira – insisti.

Samyres Freitas

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